Parecer CFM

CFM aborda Medicina Antroposófica usando argumentos que serviram para proibir auto-hemoterapia

- Assim, Pareceres do Conselho de Medicina criam confusão sobre método científico

“Fazer do método científico convencional o único método possível de conhecimento significa renunciar a um conhecimento integral da natureza humana”. Esta frase faz tremer as letras do Parecer Nº 12/07 do Conselho Federal de Medicina, que tratou da Auto-hemoterapia, principalmente se for acrescida desta outra: “Esse conhecimento precisa ser ampliado e, na sua ampliação, transformado por um outro conhecimento que se baseia numa capacidade de percepção abrangente, espiritual, uma percepção de totalidades, a ser desenvolvida pela alma humana”, bem como de outro trecho que diz: “Esta capacidade de percepção existe em todos nós, potencialmente, da mesma forma que as capacidades anímicas da pessoa adulta existem potencialmente na criança”.

Pois bem, caros leitores, estas afirmações acima foram extraídas, nada mais nada menos, que do Parecer Nº 21/93 do mesmo Conselho Federal de Medicina, que reconheceu a Medicina Antroposófica como prática médica, num processo parecido com aquele que tratou da Auto-hemoterapia. Para justificar o reconhecimento, o Dr. Nilo Fernando R. Vieira argumentou ainda que “Não se entenderá nunca a natureza própria do organismo humano enquanto não se perceber que ele, na medida em que vive, sente e pensa, se subtrai permanentemente aos efeitos e atividades que encontramos na natureza”, acrescentando que “Isto significa que nele acontecem processos que não podem ser compreendidos pelos métodos científicos usados para o conhecimento do mundo exterior”.

Apresentando a Medicina Antroposófica como “uma ampliação da arte de curar”, o Parecer afirma que aquela atividade tem se expandido desde 1920, estabelecendo-se na Alemanha, na Europa como um todo e no Brasil. “Este impulso tem crescido a ponto de ser possível criar, na Alemanha, uma faculdade de medicina na qual, desde o início o estudante adquire o conhecimento do homem do ponto de vista antroposófico, ao lado do ensino científico convencional”, diz o documento.

Segundo o Parecer, “A medicina antroposófica baseia-se em um conhecimento do ser humano, da natureza e do cosmo, que foi pesquisado e formulado por Rudolf Steiner no começo deste século (Século XX) e ao qual deu o nome de Antroposofia”. A medicina antroposófica mostra que o ser humano não é só a sua organização física, ele é também uma organização não física que se expressa nos conteúdos e atividades da alma e do espírito. O desequilíbrio nesta relação recíproca leva ao estado de doença. Defende que “Um verdadeiro conhecimento da patologia só pode ser atingido conhecendo exatamente e, deste ponto de vista, tanto os processos biológicos como os psicoespirituais e as suas relações recíprocas” e anuncia que “Neste sentido, a medicina antroposófica 'amplia' o conhecimento da medicina convencional com outros conhecimentos obtidos por métodos de pesquisa diferentes”.

Mais adiante o Parecer trata dos medicamentos utilizados pela medicina antroposófica, detalhando como devem ser ministrados, além de considerar que “Outros recursos podem ser utilizados para o tratamento de diversas doenças, entre as quais mencionaremos a massagem rítmica, as terapias artísticas e o trabalho sobre a biografia do paciente”. Detalha também que “Os medicamentos antroposóficos são produzidos por processos farmacêuticos e orientados pelos conceitos de Antroposofia, respeitando-se a natureza essencial e qualitativa das substâncias dos reinos vegetal, mineral e animal”.

Avaliando a prática antroposófica, o parecerista opina que “A minha interpretação da conceituação de ‘ampliação da arte curar’ pretendida pela medicina antroposófica está no fato de que esta prática procura resgatar um conhecimento, um entendimento do paciente ou do indivíduo em seu contexto bio-psico-social. Algo que nós médicos temos perdido no decorrer dos anos e que, de forma equivocada estamos nos especializando em tratar doenças, deixando o indivíduo de lado”.

Mesmo entendendo que não dispunha “de elementos que caracterizem a Medicina Antroposófica como uma nova forma de prática médica”, concluiu que “Observando os conceitos contidos nos artigos científicos a nós enviados, entendo que a Medicina antroposófica procura uma certa semelhança com os termos usados na medicina alopatica, embora se diferencie extremamente nos aspectos relacionados à patogenese, fisiopatologia e terapêutica medicamentosa”. Por fim, escreveu: “Acerca da terapia medicamentosa, entendo que o CFM deve recomendar aos médicos que usem os chamados medicamentos antroposóficos com extrema cautela, evitando abandonar terapêuticas já sedimentadas, por alternativas desprovidas de experimentações baseados nos métodos científicos”.

Além do Parecer do CFM, encontramos no site da ANVISA artigo do médico antroposófico Antônio José Marques com o título “O que existe por detrás do Lúpus (LES)?”. Ali ela trata de um procedimento medicamentoso, alegando que “Medicamentos complementares fazem parte das idiossincrasias de cada paciente”, que “O estímulo imunológico fica por conta do Viscum álbum” e que “Enquanto que na AR utilizam-se dosagens ponderais (% ou mg), até auto-hemoterapia com o Viscum, para uma resposta vigorosamente imunogênica, no Lúpus as dosagens do Viscum devem ter potências mais elevadas (D4 ou D5), para estímulos sutis e prolongados (durante vários anos)”. O Artigo foi publicado inicialmente na Revista “Arte Médica Ampliada”, da Associação Brasileira de Medicina Antroposófica, ano XXIV, nos 3-4, Primavera-Verão/2004.

Diante de todas estas situações, cabe mais uma vez mostrar que o Conselho Federal de Medicina precisa tratar de forma mais objetiva questões tão importantes que envolvem a vida das pessoas que precisam de alternativas de tratamento e que se vêem cerceadas no seu direito humano de preservar a própria saúde, devido a este verdadeiro mar de contradições e desencontros em que se transformaram alguns dos seus Pareceres Técnicos. Uma forma digna de sanar essas falhas, seria a reabertura da discussão a respeito da auto-hemoterapia, com a revogação do Parecer Nº 12/07.


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